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Ciência
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Congresso dos EUA relaciona projeto brasileiro a espionagem da China

Radiotelescópio Bingo gera polêmica com acusações infundadas de espionagem

João Pereira02 de abril de 2026 às 10:40
Congresso dos EUA relaciona projeto brasileiro a espionagem da China

Um projeto científico que está em desenvolvimento há quase três décadas na Serra do Urubu, na Paraíba, recentemente se tornou alvo de polêmica. Um comitê do Congresso dos Estados Unidos publicou, no final de fevereiro, um relatório insinuando que o radiotelescópio Bingo poderia ser um dispositivo de vigilância vinculado à China, com a capacidade de interceptar sinais de satélite e monitorar comunicações.

Localizado no município de Aguiar, a aproximadamente 450 quilômetros de João Pessoa, o Bingo é considerado o maior radiotelescópio da América Latina. O relatório gerou estranheza, remetendo a um contexto onde parlamentares republicanos tentam justificar possíveis retaliações ao Brasil sob a administração de Donald Trump, que anteriormente já fabricou narrativas como o fictício 'Cartel de los Soles'.

O Bingo, coordenado pela USP e pela Universidade Federal de Campina Grande, tem como principal objetivo a leitura de ondas acústicas de bárions no cosmos, utilizando tecnologia avançada, com colaborações de instituições internacionais, incluindo a China, Reino Unido, Holanda e África do Sul. É um esforço para entender a expansão do universo, que é um 'buraco escuro' que ainda guarda 95% do que não conhecemos.

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Só conhecemos 5% do universo. Nosso intuito é desbravar os outros 95%, um ‘buraco escuro’ muito mais complexo e com muito mais detalhes do que se pensa

Elcio Abdala, professor da USP e coordenador do Bingo.

Enquanto isso, o presidente Lula formalizou um acordo com o governo chinês em 2023, garantindo que o uso do radiotelescópio será pacífico e voltado para a exploração espacial, respeitando o Direito Internacional. Não há intenções militares, como sugerido pelo relatório dos EUA.

O Bingo visa mapear emissões de hidrogênio no espaço utilizando ondas de rádio, analisando a expansão universa.

Contexto do projeto

O Bingo conta com a colaboração de pesquisadores de várias universidades, além de parcerias com empresas para a construção dos equipamentos.

A fabricação dos componentes foi principalmente designada aos pesquisadores chineses, que possuem um setor de metalurgia avançado, em um esforço conjunto com cientistas do Brasil e do Reino Unido. Embora os pesquisadores americanos tenham se afastado do projeto após a posse de Trump, a equipe avança com as etapas de instalação, prevendo o início das operações para 2027.

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O relatório é completamente absurdo. O projeto é brasileiro, e a maior parte dos estudos foi desenvolvida por pesquisadores nacionais

Alexandre Wuensche, coordenador científico do Bingo.

Os últimos desenvolvimentos do Congresso dos EUA lembram tensões da Guerra Fria. O relatório menciona uma suposta infraestrutura de espionagem da China na América Latina, mas os especialistas destacam que o Bingo é uma iniciativa científica e não militar.

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Estamos fazendo ciência. Queremos entender por que o universo está em expansão acelerada e qual é a causa desse fenômeno

Alexandre Wuensche.

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