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Agronegócio
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Liquidez do produtor em risco com nova reforma tributária

Mudanças nas notas fiscais e integração bancária geram incertezas.

Mariana Souza12 de abril de 2026 às 15:25
Liquidez do produtor em risco com nova reforma tributária

A nova reforma tributária impõe desafios ao agronegócio brasileiro, especialmente no que diz respeito à liquidez dos produtores. Apesar do anúncio da Receita Federal de que não haverá multas na fase inicial, as adaptações necessárias têm gerado preocupação.

Desafios com a integração tributária

A partir de 2026, os produtores se deparam com a inclusão da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) nas notas fiscais, sem que haja cobrança nesse primeiro momento. Este período serve como um teste para a funcionalidade do novo sistema, focando na validação das obrigações fiscais e na comunicação entre as partes.

O impacto maior não vem da carga tributária, mas sim da operacionalização das novas normas.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) ressalta que tanto produtores quanto contadores precisam se adaptar rapidamente, especialmente em relação à emissão de notas fiscais eletrônicas e atualização de sistemas próprios. Novos campos e layouts serão obrigatórios, além de um fluxo de informações mais intensificado entre as autoridades fiscais.

Pressão sobre o fluxo financeiro

Os produtores enfrentam um dilema, onde, embora a cobrança do imposto ainda não tenha início efetivo, já há implicações na gestão financeira. Segundo Munique Lopes, especialista tributária da Agrotis, a fase de testes pode propiciar uma liquidez a curto prazo, mas a verdadeira pressão se dará no momento da comercialização.

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O ideal para o produtor é monitorar os créditos não apropriados e simular a carga tributária da venda para evitar problemas no fluxo de caixa

Munique Lopes, especialista contábil.

Esse contexto se torna ainda mais complexo para setores como o de fertilizantes, onde os produtores costumam enfrentar custos significativos antes de ver retorno financeiro. A nova lógica de tributação tende a afetar decisivamente as operações comerciais.

O modelo de split payment, onde o imposto é deduzido automaticamente na transação, muda a maneira de operar no setor.

O advogado Ralph Melles Sticca explica que, no sistema atual, as empresas recolhem o valor total e apuram os impostos ao final do mês. Com a nova regra, a retenção será feita imediatamente pela instituição financeira. Este processo, dependendo de como for implementado, pode desviar parte das receitas do caixa do produtor.

Riscos e oportunidades na nova realidade

Embora o modelo possa potencialmente diminuir a sonegação, as preocupações sobre um aumento da burocracia e dificuldades na execução das operações comerciais são grandes. Faria, outro advogado, destaca que a conformidade com as novas exigências é crucial para evitar penalidades que impactem ainda mais o já frágil caixa do produtor.

O adiamento da tributação para o momento da venda, por sua vez, apenas transferirá o problema para um estágio posterior, onde os agricultores podem não ter créditos suficientes para abater a nova carga tributária. Assim, em 2027, a expectativa é de que a entrada da CBS amplifique as preocupações já existentes sobre a liquidez.

As mudanças não se concentram apenas em aumentar a carga tributária, mas em alterar drasticamente como o agronegócio opera financeiramente.

Em suma, à medida que a reforma tributária avança, os produtores precisam ajustar suas estratégias, não só para entender os novos valores a serem pagos, mas especialmente sobre como financiar sua produção em um ambiente onde a liquidez poderá ser comprometida antes da recuperação de receitas.

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