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Brasil
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Cadernetas de poupanca revelam luta pela liberdade de escravizados

Levantamento revela histórias de emancipação através de economias.

Fernanda Lima13 de maio de 2026 às 12:50
Cadernetas de poupanca revelam luta pela liberdade de escravizados

Nesta quarta-feira, 13 de maio, o Brasil comemora 138 anos da promulgação da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no país. Uma pesquisa recente sobre 158 cadernetas de poupança de pessoas escravizadas, arquivadas pela Caixa Econômica Federal, evidencia que, para muitos, a liberdade foi conquistada com esforço financeiro e planejamento, e não apenas por meio de um decreto.

Uma Nova Perspectiva sobre a Emancipação

A investigação da Caixa foi uma resposta à ação do Ministério Público Federal, que, em 2025, solicitou esclarecimentos sobre o destino de economias de escravizados. As cadernetas, datadas entre 1861 e 1888, funcionam como um testemunho da luta por liberdade financeira. O decreto nº 5.594 de 1874, que permitiu que pessoas escravizadas abrissem contas de forma independente, foi um ponto crucial nessa narrativa, permitindo que o 'pecúlio' acumulado fosse guardado para a compra da alforria.

A liberdade procurada por muitos escravizados era um projeto planejado, comunicado nas cadernetas de poupança.

Exemplos de pessoas como Theobaldo, que economizou mais de 522$300 réis entre 1875 e 1881, ilustram essa determinação. Esse valor foi utilizado para indenizar seu ex-senhor através do Fundo de Emancipação. Outros, como Custódia, também conseguiram juntar o dinheiro necessário para atingir o mesmo objetivo. Além disso, histórias de negociações diretas, como a de Joanna, que transferiu sua caderneta ao seu senhor após conquistar sua liberdade, mostram a complexidade dessas relações financeiras.

Histórias de Solidariedade e Desafios

As cadernetas não apenas documentam a luta individual, mas também refletem laços familiares. Izabel, uma africana liberta, destinou seu saldo ao filho Manoel, ainda escravizado, sublinhando a solidariedade entre famílias em busca de liberdade. O caso de Francisco das Chagas, que abriu uma conta para garantir a alforria de sua esposa, Thereza, é mais um exemplo do esforço comunitário em busca da emancipação.

Mais da metade das cadernetas analisadas revelam referências à cor ou origem dos titulares, indicando sua condição social.

Contudo, especialistas criticam o levantamento da Caixa. O relatório possui falhas metodológicas e limitações geográficas, com 128 das 158 cadernetas provenientes de Mato Grosso, o que não representa adequadamente a totalidade do fenômeno da escravidão no Brasil. Além disso, o documento ignora registros contábeis contínuos, o que pode levar a uma compreensão incompleta do contexto econômico da época.

Reações e Demandas por Mais Transparência

Em resposta às críticas, o Ministério Público determinou que a Caixa apresentasse informações adicionais sobre sua equipe e os livros de contas em seu acervo. O objetivo é examinar como os valores abandonados foram tratados e se foram incorporados ao patrimônio da instituição. Especialistas apontam que a simples informação de liquidação não prova quem sacou os valores ou qual a destinação deles.

O caso ressuscita o debate global sobre reparações e reconhecimento histórico do impacto da escravidão.

A discussão sobre reparações relacionadas à escravidão tem ganhado força em todo o mundo. Enquanto bancos europeus e norte-americanos reconhecem suas ligações com o tráfico de escravos, no Brasil, as propostas de reparação econômica para os descendentes permanecem em debate, sem implementação concreta. Sugestões incluem a criação de fundos para preservação da memória e iniciativas de reparação social coletiva.

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