As baixadas refletem a luta por infraestrutura e dignidade.

A canção que destaca a relação dos paraenses com o Rio Guamá e a Baía do Guajará nunca fez tanto sentido quanto agora, com a população enfrentando alagamentos e transformações urbanas em Belém. A cidade, que se desenvolveu ao lado das águas, carrega uma história de desigualdade moldada por essas mesmas fontes.
A interação da população com os rios é desigual. Enquanto parte da cidade se beneficia de boas infraestruturas, as 'baixadas' são frequentemente negligenciadas, com suas comunidades vivendo em condições precárias. Essas áreas, abaixo de quatro metros de altitude, estão sujeitas a alagamentos frequentes e são fortemente afetadas pelas marés.
✨ As baixadas não são apenas locais de habitação, mas sim símbolos da desigualdade urbana, resultantes de políticas que priorizaram áreas ricas em detrimento das comunidades mais vulneráveis.
Durante o final do século XIX e início do século XX, Belém passou por reformas significativas, inspiradas por modelos europeus que visavam embelezar a cidade. No entanto, essa valorização se deu à custa do esforço em resolver as condições de vida nas áreas mais afetadas pelas enchentes. A lógica de canalizar águas sem enfrentar as causas da vulnerabilidade só agravou as situações de risco.
Relatórios de risco geológico revelaram 32 áreas de alto risco e 93 de risco muito alto, ignorados pelas autoridades locais. A resposta pública tem sido reativa e insuficiente, com interceptações provisórias que não resolvem os problemas estruturais das comunidades periféricas.
Com a proximidade da COP30, planos de revitalização urbana e projetos de infraestrutura têm ganhado ênfase, mas continuam a seguir uma lógica que prioriza áreas centrais em detrimento das margens da cidade. Enquanto uma parte da população desfruta de novas áreas de lazer, muitas famílias lutam cotidianamente contra as consequências dos alagamentos, enfrentando problemas de saúde e perda de bens.
"Tratar essa realidade como mera tragédia natural é desviar a atenção do verdadeiro problema: um modelo urbano que marginaliza as comunidades vulneráveis.
As comunidades respondem de maneira inventiva, construindo passarelas improvisadas, organizando redes de solidariedade e ajudando uns aos outros durante as crises. A força coletiva tem se mostrado fundamental, desde o acolhimento de famílias desalojadas até a distribuição de alimentos e materiais.
Entre 1996 e 2014, no Brasil, quase 98 mil pessoas negras faleceram devido a doenças vinculadas à falta de saneamento. Essa cifra reflete um padrão preocupante que também se observa em Belém, onde a infraestrutura básica é escassa.
A herança da desigualdade em Belém indica a necessidade de uma nova abordagem sobre o que significa progresso. A luta dos moradores das baixadas não é apenas pela sobrevivência, mas pela afirmação do valor de suas vidas em um cenário que continua a explorar as disparidades sociais.
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