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política
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Redes sociais e policiais: crise de legitimidade nas forças de segurança

A popularidade crescente de agentes como influenciadores gera desafios éticos.

João Pereira16 de abril de 2026 às 18:05
Redes sociais e policiais: crise de legitimidade nas forças de segurança

A ascensão de policiais como influenciadores digitais está minando a credibilidade das forças de segurança, gerando confusão entre a voz individual dos agentes e a postura institucional.

Vídeos impactantes, recheados de perseguições emocionantes e diálogos que lembram filmes de ação dos anos 90, têm conquistado o interesse nas redes sociais. Agentes de segurança, como os policiais, utilizam essa estratégia para engajar e monetizar seu conteúdo, misturando conselhos pessoais com suas funções oficiais.

As ações dos policiais influenciadores levantam preocupações sobre a falta de regulação e os limites éticos na atuação de servidores públicos.

A deputada Ediane Maria, do PSOL de São Paulo, denunciou o policial rodoviário Breno Vieira ao Ministério Público Federal por seu canal 'Café com teu pai', onde oferece conselhos amorosos, muitas vezes impregnados de machismo. Apesar da proibição da PRF de atividades paralelas, o canal permanece ativo, somando quase 30 milhões de seguidores.

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Isso é nocivo porque pode induzir a população a acreditar que esse posicionamento é oficial.

Ediane Maria

Uma análise do Instituto Sou da Paz revelou que apenas 37 de 56 corporações policiais no Brasil possuem alguma forma de regulamentação em relação ao uso das redes sociais. As diretrizes existentes foram criadas rapidamente desde 2021, evidenciando a urgência de regulamentar essa nova dinâmica.

O caso emblemático de Gabriel Monteiro, ex-policial militar fluminense que utilizou sua fama para alavancar sua carreira política, exemplifica os riscos dessa situação. Participando de vídeos polêmicos enquanto violava normas internas, ele gerou uma série de desrespeitos disciplinares sem consequências diretas pelo seu uso das redes sociais.

Em 2023, a Polícia Militar do Rio de Janeiro implementou regulamentações mais claras sobre o uso de redes sociais, proibindo explicitamente o uso de símbolos institucionais em perfis pessoais. Embora os especialistas tenham elogiado a iniciativa, alertam que o debate precisa equilibrar liberdades individuais e comportamentos éticos.

O aumento de πολιτικοί oriundos das forças policiais saltou de 4 em 2010 para 42 em 2018, representando um crescimento de 950%.

Carla Ricardo, da ONG Sou da Paz, acrescenta que a visibilidade nas redes não apenas impulsiona as carreiras, mas também cria uma desigualdade nas eleições, já que muitos policiais iniciam suas campanhas antes do período oficial permitido. A presença nas redes sociais oferece também uma fonte de receita significativa, como no caso do delegado Carlos Alberto da Cunha, que gerou lucros superiores a R$ 500 mil anualmente com seus vídeos.

No entanto, esse modelo levou a condutas inadequadas, como no caso do mesmo delegado que encenou operações de resgate em seus vídeos, gerando um debate sobre a utilização de recursos públicos para autopromoção. Com essas denúncias, a discussão sobre regulamentação se torna cada vez mais importante.

Apesar de alguns avanços, a falta de diretrizes específicas ainda gera um espaço para abusos e a necessidade de estabelecimentos de normas que protejam tanto os agentes quanto a população. Assim, a regulamentação da atividade dos policiais nas redes sociais precisa ser tratada com seriedade para evitar que o cumprimento da lei fique à mercê de algoritmos e interesses pessoais.

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