Excesso de energia solar gera cortes temporários no sistema elétrico

O Brasil abriga aproximadamente 4,6 milhões de consumidores que, além de residenciais, atuam como micro e minigeradores de energia, representando cerca de 5% da totalidade. Esses consumidores geram a própria energia, principalmente através de painéis solares instalados em suas propriedades.
Com a ascensão da geração distribuída, a matriz energética brasileira ganhou novas dimensões, contando com incentivos para a expansão de fontes renováveis de energia. Porém, isso também trouxe um desafio significativo ao sistema elétrico, o qual deve constantemente equilibrar a quantidade de energia que é produzida com a que é consumida.
✨ Os desafios da energia renovável: Intermitência afeta o sistema elétrico.
As energias renováveis, como solar e eólica, dependem de condições climáticas que nem sempre se alinhavam ao consumo energético, tornando-as intermitentes. Isso resulta em momentos de produção excessiva, especialmente em finais de semana, quando a demanda é geralmente mais baixa.
Recentemente, no domingo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou um mecanismo pela segunda vez para conter este descompasso, reduzindo em cerca de 1 gigawatt (GW) a produção de energia entre 11h e 13h30. Uma situação semelhante já havia ocorrido em junho do ano anterior.
O crescimento da geração distribuída tem relação direta com os incentivos implementados para a instalação de sistemas de energia solar. Normalmente, consumidores que geram sua própria energia estão isentos das tarifas de distribuição que pesam sobre os demais consumidores.
O Marco Legal da Geração Distribuída, instituído em 2022, prevê que os subsídios para quem aderiu até janeiro de 2023 serão válidos até 2045. Já aqueles que se juntaram depois enfrentarão uma transição com taxas progressivas para o uso da infraestrutura elétrica ao injetar energia na rede.
"Os subsídios viabilizaram a transformação da matriz energética, mas geram desafios ao setor, transferindo custos para consumidores menos favorecidos
A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) é uma taxa que financia políticas de energia, incluindo a geração distribuída, e pode alcançar R$ 52,7 bilhões para 2026, segundo estimativas da Aneel.
Os cortes na geração se tornaram uma prática habitual no Brasil, principalmente em períodos de grande produção solar e durante finais de semana. Nesses horários, o ONS se vê obrigado a diminuir a energia de fontes controláveis, como hidrelétricas e termelétricas, para evitar excesso na oferta.
De acordo com Roberto Brandão, especialista do setor elétrico, mesmo com limitações no geração de energia hídrica e térmica, é comum que a oferta continue excedendo a demanda, resultando em cortes que incluem eólicas e solares.
Esses cortes impactam usinas que não são despachadas diretamente pela ONS, exigindo uma coordenação com distribuidoras para interromper a geração.
Segundo uma análise da Volt Robotics, os cortes na geração solar e eólica podem acarretar uma perda de R$ 6,5 bilhões em 2025. Joisa Dutra, do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV, enfatiza que o excesso de oferta pode comprometer o retorno sobre investimentos no setor, causando dificuldades financeiras.
O ONS está considerando medidas para melhorar o equilíbrio entre geração e consumo. Possíveis ações incluem ampliar o uso de sistemas de armazenamento de energia, reforçar a infraestrutura de transmissão e integrar novas cargas eletrointensivas, como data centers.
A ABEEólica propõe um incentivo ao uso de tarifas econômicas por horário, restrições de novos acessos e a instalação de sistemas de armazenagem, além de estimular a demanda por eletricidade em áreas como a eletrificação da indústria e a mobilidade elétrica.
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Jornalista especializado em energia

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