Análise do cenário político atual em relação à história e aos movimentos sociais.

O tempo não existe. Tenho a impressão de ouvir o Mino aqui, na sala ao lado, madrugada adentro, enquanto os últimos combatentes da redação recolhem as armas após a eterna batalha perdida. Estamos em 2026 ou em 2018? O tempo não existe, sussurra Mino.
Vladimir Safatle, um pouco mais jovem do que eu, sorve um gole de café à minha frente. ‘Chegou o nosso 1964’, dramatizo. O filósofo ressalta a coincidência. A ideia é o argumento central de um artigo que ele pretende enviar à revista.
Filho do exílio, nascido em Santiago do Chile, Safatle sentiu na pele o sequestro das liberdades. Eu, ao contrário, vivi a infância em uma Macondo de pão de queijo, isolado em uma ilha de rio na mineira e pacata Governador Valadares, entre livros, um pai alienado, jabuticabeiras e rachas de futebol nas ruas de barro.
Em Paris, vive-se o maio de 1968. Barricadas e pedras respondem ao gás lacrimogêneo, jatos d’água e cassetetes. A revolta dos estudantes franceses inspira outras manifestações no continente, em Milão, Lisboa, Madri. Moradia, educação, Palestina, exigem.
O levante de 68 produziu seus heróis particulares, boa e má literatura, teses acadêmicas e cinema, mas, igualmente, despertou uma contrarrevolução violenta, plasmada em governos reacionários na década seguinte. À sombra dos protestos franceses, Marine Le Pen esfrega as mãos.
✨ O Brasil estará diante de duas escolhas, seguindo a luz da Constituição ou descendo aos porões do coronel Brilhante Ustra.
Os neonazistas da AfD galopam nas eleições alemãs. O Vox espanhol e o Chega português salivam, prontos para o bote. A cadela do fascismo volta ao cio. Ou nunca saiu dele.
Domingos Velho, Calabar, Joaquim Silvério, Sérgio Paranhos Fleury, Harry Shibata e João Figueiredo estarão representados. E o ministro André Mendonça será o grande artífice.
Nesta véspera de 1964, neste 2018 reiniciado, Flávio Bolsonaro é, por estas bandas, a farsa a emular a tragédia. Miliciano que não tem currículo, mas ficha corrida, apresenta-se como paladino do combate à corrupção.
Pede ao eleitor que ignore a casa de 6 milhões de reais em Brasília e as incoerências em sua trajetória. Promete descer a rampa do Palácio do Planalto ao lado do pai, condenado por tentativa de golpe de Estado.
Flávio Bolsonaro promete surpresas se eleito, que também incluirão figuras históricas carregadas de controvérsia e enfrentamentos políticos. Ele vem naufragando entre promessas de liberdade e um estado de exceção.
No Tribunal Superior Eleitoral, André Mendonça, juiz-torcedor, maquina o derradeiro golpe, ameaçando bloquear o canal de WhatsApp ‘Exército do Lula’.
Às vésperas de uma nova eleição, a sociedade se vê dividida entre o passado sombrio e a esperança de um futuro mais democrático. No domingo 25, as escolhas estarão nas mãos do povo.
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Jornalista especializado em Política




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