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Impactos dos biocombustíveis nos preços dos alimentos são complexos

Estudo revela como farelo de soja influencia custos na produção

Mariana Souza16 de junho de 2026 às 07:05
Impactos dos biocombustíveis nos preços dos alimentos são complexos

O debate sobre o efeito dos biocombustíveis nos preços alimentares tem sido um assunto recorrente, especialmente à medida que as políticas nessa área têm se ampliado ao longo das décadas.

A preocupação central reside na possibilidade de que, ao desviar parte da produção agrícola para a geração de energia, os biocombustíveis poderiam, na verdade, reduzir a oferta de alimentos. Além disso, a crescente interligação entre os mercados de energia e os de commodities agrícolas tem tornado os preços alimentares mais suscetíveis a flutuações no setor energético.

Os efeitos dos biocombustíveis variam conforme o contexto, destacando a importância dos coprodutos.

Contudo, essa dinâmica é mais complexa do que parece. Pesquisas indicam que as repercussões dos biocombustíveis nos mercados agrícolas são influenciadas por fatores como o país em questão, o tipo de biocombustível envolvido, a estrutura das políticas públicas e as características das cadeias produtivas.

Uma perspectiva que começou a ganhar atenção é a dos coprodutos gerados na produção de biocombustíveis. Por exemplo, ao analisar o biodiesel de soja brasileiro, devemos considerar não apenas o óleo, mas também o farelo de soja – que representa aproximadamente 80% do produto resultante do processamento.

A interdependência entre óleo e farelo de soja

A demanda por óleo de soja geralmente leva a um aumento no esmagamento da soja, resultando em maior oferta de farelo, o que tem potenciais implicações para o mercado de ração e segurança alimentar.

Um estudo recente realizado por Cepea/Esalq-USP em colaboração com a Abiove investigou se a maior oferta de farelo, que tende a reduzir seus preços, realmente influencia os custos de produção nas indústrias de ração.

Os achados confirmaram que as variações nos preços do farelo de soja têm um impacto significativo nos preços das rações. Mais especificamente, cerca de 36% das variações nos preços das rações são atribuídas a mudanças nos preços do farelo de soja.

No entanto, o estudo elucidou que a transmissão desses efeitos não é imediata: um aumento de 8,42% no preço do farelo resulta em um acréscimo inicial de apenas 0,44% nos preços das rações, com efeitos mais substanciais se acumulando ao longo do tempo.

A transmissão dos preços é gradual e assimétrica, dificultando a percepção dos impactos pelos produtores e consumidores.

Ainda mais, os resultados revelaram que os aumentos nos preços do farelo são repassados mais rapidamente para os preços das rações do que as reduções, sugerindo que o ajuste de preços ocorre de maneira desigual.

Estes achados evidenciam que as políticas de biodiesel não devem ser avaliadas apenas com foco no óleo de soja, pois os efeitos dos preços se estendem por toda a cadeia produtiva, sendo crucial reconhecer o papel do farelo na dinâmica de custos.

A principal contribuição deste estudo é demonstrar que a relação entre o farelo de soja e os preços das rações é relevante do ponto de vista econômico. No entanto, a natureza gradual e assimétrica desse processo pode fazer com que os efeitos não sejam facilmente identificáveis pela sociedade.

Detalhes metodológicos sobre a pesquisa serão disponibilizados em breve nos sites do Cepea e da Abiove.

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