Tecnologia transforma resíduo de estações de tratamento em insumo agrícola eficiente.

Uma tecnologia desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em colaboração com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), possibilita a transformação do lodo gerado em estações de tratamento de água em fertilizante de liberação lenta. Esta inovação neutraliza o alumínio potencialmente tóxico encontrado no resíduo e incorpora nutrientes essenciais para as plantas, como nitrogênio e potássio.
O processo utiliza nanotecnologia para converter um material que apresentava dificuldades de destinação em um insumo agrícola. Além de minimizar o impacto ambiental causado pelo descarte desse material, a solução também pode aprimorar a absorção de nutrientes pelas plantas e diminuir as perdas durante a adubação. Os resultados preliminares obtidos em laboratório e em casa de vegetação foram encorajadores.
✨ Os pesquisadores da Embrapa buscam agora parceria com o setor privado para desenvolver um projeto-piloto industrial e avaliar a viabilidade da produção em escala maior.
O lodo produzido nas estações de tratamento (ETAs) tem características que dificultam seu aproveitamento agrícola, como a baixa quantidade de matéria orgânica e a alta concentração de sais de alumínio. Caue Ribeiro, pesquisador da Embrapa Instrumentação, explica que o alumínio, em algumas formas, pode prejudicar o desenvolvimento das raízes e dificultar a absorção de nutrientes necessários, especialmente o fósforo.
Para solucionar essas limitações, os cientistas desenvolveram um processo hidrotérmico que é realizado em equipamentos sob condições controladas de temperatura e pressão. O tratamento reorganiza os componentes do lodo e cria cristais de sodalita, um mineral da família das zeólitas que retém o alumínio, reduzindo sua liberação no ambiente. O material resultante é combinado com outras substâncias para a produção de grânulos fertilizantes que liberam nutrientes gradualmente no solo.
Experimentos feitos na Embrapa Pecuária Sudeste, localizada em São Carlos (SP), testaram o desempenho do novo fertilizante em cultivos de azevém e capim-piatã, demonstrando melhorias na absorção de nutrientes e na produção de biomassa. Os resultados mostraram que os tratamentos com sodalita granulada tiveram uma eficiência agronômica de duas a três vezes superior em comparação ao grupo de controle.
Marco Barros, diretor corporativo da Sabesp, destaca que a empresa gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado anualmente, e o custo de transporte e destinação desse material é significativo. A implementação da tecnologia em parceria com a Embrapa pode resultar em redução desses custos e redução do envio de resíduos para aterros sanitários.
Além de liberar nutrientes, os pesquisadores estão explorando o uso dos grânulos como um meio para transportar microrganismos benéficos ao crescimento das plantas. Nos testes, a formulação demonstrou compatibilidade com a bactéria Bacillus megaterium, que promove o crescimento vegetal e melhora a absorção de nutrientes.
Outro foco da pesquisa envolve a aplicação direta do lodo no solo. Estudos paralelos indicaram diferentes respostas das culturas de milho e feijão, sugerindo limites de aplicação para evitar desequilíbrios nutricionais.
O projeto tem duração de quatro anos, com investimentos superiores a R$ 2,7 milhões, e a Embrapa está agora mobilizando para a criação de um projeto-piloto industrial, além de realizar testes agronômicos em campo, considerando as diretrizes regulatórias para o registro do fertilizante no Ministério da Agricultura e Pecuária.
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