Mulheres enfrentam jornada dupla e desigualdade no cuidado e no trabalho.

Enquanto o debate sobre a jornada 6×1 avança no Brasil, a realidade das mulheres se agrava com uma carga de trabalho que soma 58,1 horas por semana, comparadas às 50,3 horas dos homens. Essa diferença é acentuada pelas 21,3 horas dedicadas a cuidados não remunerados, número quase três vezes maior que as 8,8 horas dedicadas pelos homens.
Essa realidade evidencia como a economia do cuidado, que sustenta a economia como um todo, não é reconhecida oficialmente. Segundo o FGV-Ibre, se o trabalho doméstico não remunerado fosse contabilizado, equivaleria a 13% do PIB, superando a contribuição da agropecuária.
Adicionalmente, a taxa de lares chefiados por mães solteiras aumentou em 17,8% entre 2012 e 2022. Estas mães, 72,4% das quais moram apenas com os filhos, representam mais de um quarto das famílias brasileiras. Em uma análise mais profunda, a desigualdade racial se torna evidente, com 90% do crescimento entre as mães solo ocorrendo entre mulheres negras.
✨ Entre as mães solo negras, apenas 8,9% alcançaram o ensino superior, contraste a 21,4% das brancas, perpetuando um ciclo de desigualdade.
A pressão começa desde a infância, onde 94% das meninas dedicam cerca de cinco horas diárias a tarefas de cuidado, o que contribui para altas taxas de abandono escolar. Dados da Pnad Contínua Educação 2024 mostram que 23,4% dos jovens que deixaram a escola citam a gravidez como razão, frente a apenas 0,8% dos meninos.
Embora a Constituição assegure direitos absolutos às crianças e adolescentes, a falta de políticas integradas, especialmente para mulheres negras e mães com filhos com deficiência, é alarmante. A acesso a creches, por exemplo, permanece limitado, impedindo que mães que trabalham formalmente procurem apoio.
Avanços, como a ampliação de transferências de renda, foram feitos, mas é essencial integrar saúde, educação e assistência social para garantir a real mudança na estrutura de vulnerabilidades.
Um chamado à ação é necessário. Propostas que reduzem direitos em vez de expandi-los não ajudam as mulheres que carregam o peso da dupla jornada. O compromisso com a economia do cuidado deve se traduzir em políticas públicas sólidas.
A Agenda 227 sugere medidas como ampliar vagas em creches e garantir suporte a políticas integradas de saúde e assistência social. Cuidar de quem cuida é fundamental para que os direitos das crianças se tornem uma realidade.
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Jornalista especializado em Brasil

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