Impactos das mudanças climáticas afetam a composição da oleaginosa

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelaram que a segurança alimentar pode ser ameaçada pela diminuição da qualidade nutricional da soja, apesar de condições climáticas extremas não afetarem a produtividade da cultura no Brasil.
O estudo, publicado na revista Food Research International, foi realizado no Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) e utilizou uma combinação de experimentos biológicos, modelagem estatística e inteligência artificial para prever cenários futuros.
✨ O aumento de CO₂ pode aumentar a produtividade da soja, mas reduz sua qualidade nutricional.
Embora a expectativa inicial fosse uma queda significativa na produção devido ao estresse climático, as simulações mostraram que a elevação dos níveis de gás carbônico pode favorecer o crescimento da planta, mitigando em parte os efeitos adversos do calor e da seca.
Contudo, há uma contrapartida: as modificações na composição nutricional são preocupantes. O estudo indica que com a combinação das condições extremas, a soja pode aumentar em até 175% os aminoácidos e 35% os açúcares solúveis, mas a proteína, essencial para a alimentação e comercialização, pode cair em cerca de 6%.
Os cientistas enfatizam que essa perda na qualidade é um sinal de alerta para a segurança alimentar e para a competitividade da soja brasileira no mercado internacional, uma vez que o teor proteico é fundamental para a demanda, especialmente na fabricação de rações para animais.
A pesquisa utilizou dados coletados entre 2019 e 2020, onde variáveis como temperatura, umidade e CO₂ foram ajustadas para avaliar o desenvolvimento do cultivo. Dado que a simulação simultânea dos três fatores é complexa em ambientes laboratoriais, os pesquisadores aplicaram modelos de aprendizado de máquina, utilizando o algoritmo XGBoost para melhor precisão.
Este método possibilitou uma análise mais aprofundada dos efeitos das mudanças climáticas sobre a soja, que é vital para a economia brasileira e o abastecimento global de alimentos, ração e biocombustíveis.
Além dos achados teóricos, o estudo sugere aplicações práticas que podem beneficiar os produtores rurais. Modelos preditivos criados a partir da pesquisa podem ajudar na estimativa da produtividade das lavouras em estágios iniciais, permitindo uma gestão mais eficiente e menor risco de perdas.
Os pesquisadores também acreditam que essa abordagem pode levar ao desenvolvimento de culturas mais resistentes a condições climáticas adversas, que estão se tornando cada vez mais comuns devido às mudanças climáticas.
Finalmente, eles ressaltam que o foco em qualidade deve ser uma questão prioritária nas estratégias do setor agrícola. Dependendo do destino da soja — seja para consumo humano, ração ou produção de óleo — diferentes componentes nutricionais podem se tornar economicamente relevantes, o que requer um monitoramento cuidadoso da composição dos grãos em um clima em transformação.
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